No dia 20 de outubro de 2009, recebi uma ligação inusitada em meu celular. Uma mulher se identificou como Ângela do MEC (Ministério da Educação e Cultura) e disse que eu tinha desde janeiro de 2009, um benefício disponibilizado em meu nome. Perguntei que benefício era esse, pois como sou jornalista e acompanho os jornais, não tinha lido nada sobre esse assunto. Na verdade estava achando o papo estranho.
A mulher disse: “Sim, é do MEC, Ministério da Educação e Cultura. Você tem um telefone fixo? É porque estou ligando de um telefone empresarial e só posso te explicar sobre esse benefício em um telefone fixo, você me passa seu telefone?” Como desconfiei, não passei e pedi a ela o número da central do MEC. A mulher me passou um número de telefone e disse para ligar a cobrar.
Olhei o identificador de chamadas da minha casa e constava uma ligação perdida, de Araraquara, onde moro. Como de praxe, liguei de volta para saber do que se tratava. A pessoa que atendeu, se identificou e disse que era da Microcamp. Desconfiada, perguntei a ela se a empresa tem uma funcionária chamada Ângela, ela negou e disse que a escola não tem convênio com o MEC, somente com a Proesp.
Mas o número do identificador de chamadas da minha casa e o número que a tal Ângela havia passado provavelmente é de um ramal, pois só os dois últimos dígitos são diferentes. Mesmo assim não tirei conclusões precipitadas, afinal um bom jornalista checa as informações.
Ainda não convencida, comecei uma saga na internet. Entrei na página do Ministério da Educação e do Caps, e comparei com o telefone que Ângela havia me passado. Os números não batiam. Até porque o MEC fica em Brasília e não em Araraquara. Mas enfim.
Liguei no telefone do Fala Brasil (0800-616161), mas nas quatro tentativas, a ligação caía logo após a escolha do menu principal. Fiquei de mãos atadas.
Ainda na internet, descobri várias pessoas reclamando da forma que a Microcamp oferece seus cursos, utilizando o nome de instituições governamentais e revelando o nome da verdadeira empresa depois que a pessoa tem de ouvir uma série de possíveis benefícios. Isso porque já há uma lei que limita o atendimento do call center para ser o mais breve possível, afinal as pessoas tem suas ocupações. Fiquei duas horas e meia tentando resolver essa história.
Liguei para a mulher que se identificou como Ângela. Um rapaz atendeu: “Central de Atendimento”, disse que a funcionária estava em ligação e pediu um telefone fixo para retornar minha chamada. Respondi que não poderia passar o número do meu telefone. Questionado sobre a localidade da empresa, o homem usou minha resposta. Disse que estavam em Ribeirão Preto, mas não poderia fornecer o endereço, por ser uma informação sigilosa. Pensei: Não sei como estão em Ribeirão, pois eu nem fiz chamada de longa distância!
Tentei novamente. A funcionária atendeu dizendo: “call center”. De acordo com a funcionária, Ângela estava em reunião, então ela me pediu para ligar mais tarde. Quanto ao endereço, a resposta não mudou tanto. A funcionária informou que estão localizados em Araraquara (!), mas o endereço é sigiloso.
Terceira tentativa. Passei o número do meu celular. Nada.
Quarta tentativa. Minha mãe se identificou como Fernanda e disse que estava interessada em saber sobre o benefício, mas precisava de um retorno urgente, pois sairia de casa em poucos minutos. A resposta veio rapidinho: Ângela retornou.
A abordagem não mudou. O texto usado pela mulher era o mesmo que ela utilizou quando conversou comigo via celular. “Você tem um benefício disponibilizado em seu nome desde janeiro de 2009. Você já recebeu algum contato telefônico ou correspondência da Proesp sobre isso?” Ora bolas, o Brasil todo tem esse benefício e ninguém está sabendo?
Segundo palavras da mulher: “O benefício é concedido pelo Proesp. O Proesp é o Projeto Escola Profissão, que existe para dar continuidade aos estudos. São benefícios sociais, como Bolsa Escola, Bolsa Estudo. O Proesp patrocina a renda estudantil, são 120 reais disponibilizados pela Proesp, que envolve material, uniforme e um acompanhamento psicológico”.
Ângela perguntou se sou estudante, confirmei e ela questionou em qual área. Respondi comunicação. Então entra em ação o serviço de telemarketing tradicional: “Temos contrato com a Gelre e disponibilizamos entrevistas para estágios. Além disso, pra sua área temos cursos de informática, hardware, webdesigner, TI e idiomas, que pode ser inglês e espanhol ou espanhol e inglês (não sei qual é a diferença, já que a ordem dos fatores não altera o produto).
Depois de tudo isso, para terminar meu cadastro, a mulher solicitou meus dados socioeconômicos. Como detesto passar informações pessoais por telefone, disse que não poderia fornecer. Pedi a ela o endereço da empresa para que eu procurasse pessoalmente. A resposta: Microcamp.
A tal Ângela passou o endereço da unidade de Araraquara (Av. São Bento, 1409, centro) e um protocolo. Perguntei seu nome completo e ela perguntou o porquê e se negou a fornecer, já que eu também não passei meus dados socioeconômicos. Tudo bem. A partir daí a conversa não foi nada bem. Eu questionei porque a empresa atua dessa forma utilizando o nome do MEC, já que o que eles fazem é telemarketing. A senhora ficou nervosa e disse que ela não trabalha com call center. Revelei que sou jornalista e que denunciaria o ocorrido, pois fiquei muito incomodada.
Liguei na Microcamp a procura da gerente da unidade e expus a ela toda a situação. Questionei se a empresa tem conhecimento dessa forma de atuação ou se trata de terceiros utilizando o nome da escola. Comentei que vi muitas reclamações na internet em várias unidades, não apenas em Araraquara. Mas a diretora negou que a empresa esteja utilizando o nome do MEC e até hoje não me deu um retorno.
Não tenho nada contra a Microcamp, mas é um absurdo esse tipo de abordagem utilizando nome de instituições governamentais; funcionários se passando por auditores do MEC.
Se não tivesse desconfiado, certamente já teria ido atrás desse tal benefício! Espero que o MEC e o Ministério Público façam alguma coisa. Já entrei em contato com a assessoria de impensa do MEC relatando o que aconteceu.
O Ministério Público precisa apurar os fatos e tomar as medidas necessárias. Do MEC aguardo um pronunciamento, para que as pessoas fiquem atentas.
Abaixo, gente que está com muita raiva da escola, usa a web para contar o que passou. Há casos semelhantes de pessoas que foram abordadas dessa forma. E estão com nome sujo, já que se matricularam e depois decidiram não fazer o curso.
Quando a esmola é demais até santo desconfia. Por isso, não acredite facilmente em propagandas/telemarketing que prometem mundos e fundos. É sempre bom ter os pés no chão. Lembre-se que o barato pode sair caro.

